Clevane de Asas

02 julho 2006

Poêmica,de A.A.Assis & Assuntos afins

Recebi,há algum tempo,o livro "Poêmica",do Poeta e especialíssimo trovador A.A. de Assis.De tal forma o livro me impressionou de maneira favorável e contundente -já na capa,o chamamento é instigante:"A palavra é uma parábola"-que fui relendo,saboreando,num processo de en/cantamento pleno.
A forma com que dispõe os versos,é similar às maneira com que eu disponha os meus,nos Anos Sessenta e Setenta:palavras e frases entrecruzadas,na vertical e na horizontal, nesta sua lavra,um lúdico mas denso conteúdo.
A plurivertente de sua verve é fantástica:lida com a mesma facilidade com a Poesia concreta,o haicai,o verso livre e chega à sua paixão,as trovas,qual um patinador experiente que não leva quedas,a patinar seguro sob música inaudível,senão a seus ouvidos,mas adivinhada pelo leitor.

O cotidiano é derramado com a simplicidade dos grandes poetas:

"É sexta- feira,véspera de folia.
Lá vai Maria ,
lá vai lavar em lágrimas
a vida de vida,
sofrida vida dividida
em dívidas e dúvidas "(...)

Vejam que situ/ação absolutamente atemporal para o brasileiro:cabe em muitas circunstâncias e épocas.Fiquei agradavelmente surpresa porque tenho também uma antiga poesia e uma crônica que começam "toda a vida,ávida"(...).Por isso se diz que os Poetas andam com a cabeça nas nuvens:padecemos de uma encantadora sintonia com o Alto...E quando ocorrem similaridades,como diferem das tentativas grosseiras de plágio!
Assis adora trocadilhar,ilhar a palavra em paralelismos semânticos,fazer istmos notáveis ou separas terras provocando quebra de sentido da Semântica,numa riqueza de significantes e significados.Basta dar uma breve olhada em versos aqui e ali:


"(...)o saxofone,saque-sem-fundo(...)



(...)"A alegoria,onde a alegria?"(...)


(...)"o trilo do apito
o grito do aflito
o confete,o conflito"(...)


Dos muitos achados concretistas, a segunda poesia:

2.

O

amor fez o
h
o
m
e
m
do barro.

Do barro o homem fez o tijolo
e ao
tijolo
outros
tijolos
juntou.

E fez o m
u
r
o
que do amor o separou."




Tenho uma dos Anos Sessenta,que se chama Arquitetura e diz:


Quem diriA
M
O
R T
que aquEla
R
N
U
R V
ARQUITETADA EM MIM
R
I
FAZER

CASTELOS EM
I?...


Lembro-me de,mocinha,em Juiz de Fora,no NUME ( Núcleo Mineiro de Escritores),mostrar tímida ,ao ídolo trovador, Hegel Pontes,e ele,tão circunspecto quanto eu,dizer duas vezes "Genial...genial!"...E me explicou,com sua habitual filosofia de vida,que,com poucas palavras,eu construíra uma história,um processo amoroso,este sempre raiado de perplexidade...Como não fico vaidosa,mas contente quando gostam do que escrevo,saí de lá,nas nuvens.

Depois que voltei a Minas,chegando do Pará,ligava para ele e sua memória,fascinava-me.Declamou até a trova que os trovadores fizeram,quando passei,de noiva,por eles,na nave da igreja da Glória,para casar-me com o Messias da Rocha,também trovador e meu colega de redação na Gazeta Comercial.Eu era tão mignon,que disseram algo sobre a minha passagem "etérea" -ah, preciso ligar novamente para ele e copiar essa preciosidade.

Volto a Assis,cujo livro de capa azul está bem à minha frente.Digo que todos que apreciam a poesia verdadeira,devem lê-lo(o e-mail do Poeta é alw@mgalink.com.br),se buscarem o resultado da inspiração pura e genuína.

Alguns minipoemas:

7.

"Quantos mil anos:
do paraíso
ao luxo/lixo
urb/ânus."


11.

Lá vai o velho
des-den-ta-do
a esmolar
ex
molar
esmo
lar.


49

Receita
contra
fadiga
ponha
um pouco
de cigarra
no seu
labor
de formiga.


E por aí vai.

Comovo-me ao reencontrar-me em sua poética Poêmica,nada anêmica,mas sistêmica.Palavras de minha coleção encantada,idéias ,ritmo.Isso agora e desde a primeira leitura demonstra porque ,através da internet,sem nunca tê-lo visto,o senti irmão em poesia.Para ele,brota-me:


Os versos e achados
de Assis
são anis,
aroma de chafariz
contínuo
ao nariz
da alma
de quem o lê,
en/cantada.
Pó de ouro
em poalha
de sol,
suspensão
que atalha
o caminho
do tudo e do nada
que leva a cria/tura
ao Criador.
Assis,
que re/cria-a-dor
que re/a-li-nha
a tessitura
do amor
a tece/dura
do manto
macio
e colorido
da vida:
mantra
que se repete,
canta,
para sobre/viver...

Mas tenho de fechar com trova,pois sua excelência justifica as tantos premiações em Jogos Florais.Escolhi uma preciosidade(para mim,que amo as aves,e pretendo entender de casais,uma trova especialíssima):

"Querida,eu comparo a gente
às asas de um passarinho:
um sem outro,certamente,
não se equilibra sozinho!"

(O que por certo justifica Assis e D.Lucila,sua esposa,viajarem juntos para que ele receba seus merecidos premios)

Clevane Pessoa de Araújo Lopes.
Belo Horizonte,02/02/06

N:Aguardem mais,,pois é impossível parar:trata-se de uma resenha sequêncial...